Além de fazer parte do sonho de muita gente, o imóvel sempre foi considerado uma moeda muito forte, sobrevivendo entre as ruínas das piores crises econômicas do Brasil. Se durante a bonança costuma ser visto como um investimento conservador, é na crise que se torna a alternativa mais segura e rentável para investir patrimônio. A história prova toda essa resistência.

No início da minha carreira, acompanhei a implantação do Plano Real. Nessa época o Brasil sofria com a hiperinflação e o saldo devedor dos imóveis chegava a ser 6x maior que o valor do imóvel. O mercado precisou se ajustar para alcançar a tão esperada estabilidade econômica. Tanto é que a Caixa chegou a oferecer 90% de desconto na quitação de financiamentos imobiliários. Nessa época, os investidores já voltavam os olhares ao mercado imobiliário como a principal alternativa para blindar seu patrimônio de tamanha instabilidade. Bastou para o imóvel virar sinônimo de proteção, em todos os sentidos. Um bem físico, que apenas valoriza e não pode ser tomado por ninguém. A partir do Plano Real a economia voltou a reagir e o mercado voltou à ativa com maior disponibilidade de recursos financeiros, valorização de imóveis comerciais e, consequentemente, grande destaque para a locação de imóveis.

Os anos se passaram e a possibilidade de um novo governo assumir, agora de esquerda, reacendeu o medo de encontrar uma nova crise pela frente, de ter as economias retidas novamente, semelhante ao que havia ocorrido no Plano Collor. Naturalmente, grande parte das pessoas reforçaram o investimento em imóveis e terrenos, mais uma vez como forma de proteger seu patrimônio.

No entanto, visando manter sua popularidade, o governo Lula passou a investir fortemente no mercado imobiliário e na construção civil, lançando anos depois o Programa Minha Casa Minha Vida, voltado à construção de moradias para famílias de baixa renda. A iniciativa fez os números de venda subirem, fez o volume de crédito aumentar e o mercado imobiliário decolou, acompanhando o crescimento do país e do mundo.

Aliás, o mundo em partes, já que na mesma época a economia norte-americana colapsou com a crise do subprime ou também conhecida como a “bolha imobiliária americana”. Uma crise tão grande, na maior potência mundial, inevitavelmente acabou afetando a economia do mundo todo. Porém, mais uma vez a força do mercado imobiliário brasileiro foi evidenciado. Enquanto os EUA enfrentavam as consequências de concessões de crédito desenfreadas, o Brasil já trabalhava com um sistema muito mais sustentável, limitando a concessão conforme a capacidade financeira do tomador. Enquanto a oferta americana subia e os preços eram liquidados a rodo, o mercado imobiliário brasileiro se mantinha blindado novamente.

Depois disso tudo, fica fácil saber para onde os olhares estão se voltando enquanto vivemos uma crise epidemiológica. Enquanto a instabilidade econômica afeta diferentes mercados e até mesmo as opções de investimento tidas como mais seguras, o mercado imobiliário resiste.

Está à frente da renda fixa e CDB, que pagam abaixo da inflação, e superando a renda variável que não para de oscilar. Ao contrário da bolsa de valores que só em março reduziu em 40% o preço das ações brasileiras, o imóvel não liquida tão facilmente, muito menos nessas proporções. Ele sofre? Sofre. Para vender às vezes é preciso facilitar, mas dificilmente vai perder valor, exceto na falta de critérios para comprar. Sem falar que além de valorizar ao longo do tempo, o imóvel possui uma vantagem extra: a locação, que tende a aumentar nos próximos meses.